O objeto de estudo da pedagogia é o fato educativo, logo é importante compreender que a educação não se limita a relação entre professor e aluno no interior de uma sala de aula, no interior de uma escola, mas também é estabelecida em outros espaços, como familiar, religioso, no trabalho, entre outros.
Lopes (2004), nesse sentido, afirma que “refletir sobre o processo pedagógico em ambientes não escolares passa a ser uma tarefa de árdua contemplação e delimitação de concepções teóricas” (p. 17), justamente por compreender um sentido maior para a Pedagogia, maior aplicabilidade para ela em diversos espaços, como em empresas, hospitais, setores sociais, entre outros.
O foco do estágio, aqui relatado, foi o trabalho do pedagogo em ambiente religioso. É importante destacar que, na história brasileira, a educação religiosa faz parte do cerne educacional nacional, na sua origem, principalmente considerando que as primeiras atividades educativas desenvolvidas pelos portugueses ao chegar ao Brasil, voltou-se para a catequização dos índios, com um ensino religioso fortemente marcado e intencionalmente político, principalmente para as crianças. (MOSER, 2008)
Com as mudanças históricas na política do país, a educação passou a se desvencilhar-se da igreja católica no país, contudo quando observamos a historia da educação em nível mundial, é possível verificar que a presença da igreja foi muito presente em muitos países. Inclusive, aquele é considerado o Pai da Didática, Comênius, ao escrever sua obra “Didática Magna”, trouxe diversos preceitos cristãos para defender uma educação mais inclusiva. Sua prática, em muitos casos, advinha da educação religiosa que também estabelecia o ensino das letras e matemática.
Imagem 01 - Comenius, Pai da Didática
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Contudo, é importante destacar a questão das escolas bíblicas, escolas bíblicas dominicais nas igrejas cristãs evangélicos, que ocorrem no interior das instituições e possuem finalidades próprias nestas.
Nunes (2017) narra que a primeira escola bíblica foi criada na Inglaterra, por Robert Rikes, que criou a ideia por volta de 1780, ao perceber que o aumento da criminalidade infantil aumentava na região, e decidiu ir pelas ruas da cidade convidando as crianças que ficavam pelas ruas para que, aos domingos, estudassem em casas particulares cedidas. O currículo ia desde a alfabetização, até chegar à catequese. O autor narra que muitos duvidaram da ideia.
Imagem 2 - Robert Rikes, fundador da Escola Bíblica Dominical
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Contudo, no dia 3 de novembro de 1783, Rikes publicou um texto em um jornal local mostrando os resultados que o ensino das letras, matemática e da palavra de Deus fizera aos jovens que participaram da escola. A base da ideia de Rikes, não foi inédita, pois se baseava na concepção de Lutero, que defendia o valor do acesso aos conhecimentos bíblicos e as mudanças sociais que poderiam advir deles.
Sousa (2010) afirma que a primeira escola bíblica dominical, no Brasil, foi fundada no Rio de Janeiro, em 1885, por Robert e Sara Kelly, com apenas cinco crianças, sendo esta uma base para a inauguração da primeira Igreja Congressional do país. Já, em 1911, com a chegada a Igreja Assembleia de Deus no Brasil, especificamente em Belém, Pará, foi inaugurado a primeira escola bíblica dominical do estado. Em 1920, a Assembleia de Deus lança suplementos em jornais que seriam a base para o lançamento das revistas de escola bíblica, pela editora CPAD.
Imagem 03 - Fundadores da Escola Bíblica Dominical Brasileira
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De acordo com o site oficial da Igreja Quadrangular, esta foi fundada em 1951, em Los Angeles, por Aimée Semple Mcpherson – uma das primeiras mulheres a fundar uma igreja e ser a pastora titular desta. E desde sempre, a Escola Bíblica fez parte dos fundamentos da igreja. Contudo, esta era destinada somente a crianças. A responsável por mudar isto, foi uma professora universitária chamada Lucille Marie Johnson, que defendia o ensino bíblico como sendo uma espinha dorsal da igreja, para formar cristãos, seja crianças, jovem ou adulto. Ela veio ao Brasil em 1959, e também revolucionou a EBD no pais, inclusive fortalecendo as instituições de classes separadas para homens, mulheres, jovens e crianças. (QUADRANGULAR, s/d)
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É importante perceber e ressaltar que ao longo do tempo, a escola bíblica deixou de considerar o ensino das letras, matemática, entre outros conhecimentos de outras áreas, focalizando sua atenção ao ensino bíblico. Os membros que atuavam nela, geralmente não detinha formação acadêmica.
Em nível local, de acordo com o jornal institucional “Lumiar”, a Igreja Quadrangular de Canudos 1, foi fundada em 1976, pelo pastor Josué Bengtson, porém a escola bíblica nessa igreja só foi fundada em 1978, com a direção do Pastor José Jerônimo, que formou os professores e classes.
Hammes, Ott e Silva (2019), ao analisarem práticas pedagógicas de pedagogas em uma instituição religiosa, apontaram que a atuação deste profissional “tem por objetivo construir fundamentos sociais e cognitivos de formação de caráter infantil e juvenil a respeito da cidadania, bem como da convivência em sociedade” (HAMMES, OTI, SILVA, 2019, P. 603). No trabalho, é possível perceber que as professoras estabelecem uma prática pedagógica que envolve conhecimentos científicos educacionais e fé, em diálogo constante, principalmente no momento de formular atividades, planejamento e visão a ser transmitida aos professores e demais membros.
Logo, ao estabelecer o planejamento de estágio foi necessário constantemente tentar compreender essa inter-relação, pois a prática da pedagoga, em muitos casos, não vai se desvencilhava da sua fé, principalmente porque, na maioria dos casos, essa profissional é voluntária dentro da instituição. Por conta disto, este estágio exige um olhar apurado para verificar a relação constante da motivação da fé e do valor da educação.



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